Para além da Atração: Conheça os Bastidores do Jardim Zoológico de Lisboa
- Leonor Braga
- 15 de mar. de 2024
- 7 min de leitura
Atualizado: 15 de mar. de 2024
No Jardim Zoológico de Lisboa somos transportados para um mundo com um eco dos sons da selva, entre árvores e arbustos, que impressionam a curiosidade dos visitantes. Existe um universo invisível aos olhos do público: Os Bastidores do Zoológico de Lisboa.
Aqui, enfrentam-se tantos desafios quanto às espécies que habitam. Cada animal recebe cuidados específicos e atenção individualizada, num esforço conjunto para garantir não apenas a sua sobrevivência, mas também o seu bem-estar físico e emocional.
O que podes encontrar neste post:
A qualidade de vida dos animais do Jardim Zoológico
Alimentação dos Animais
A maioria dos animais costumam ainda estar a dormir quando os funcionários começam a preparar as refeições, por volta das 7H da manhã. Os alimentos dos animais têm de ser fornecidos essencialmente crus, evitando qualquer processo, isto é, o mais natural e realista que um animal no seu habitat iria digerir.
Ana Saraiva, Responsável pelo Departamento de Nutrição diz-nos que:
“O Feno é a base da alimentação de muitos animais herbívoros aqui no Zoo consomem, o que faz com que todas as semanas tenhamos de receber esta planta”.
Sabias que...?
Uma estimativa da quantidade de alimentação por semana que entra no Jardim, para suportar os animais que o habitam é a seguinte:
1000 Kg – Feno
270 kg – Fruta
220 kg – Vegetais
120 kg – Carne
50 uni. – Gafanhotos
2Kg – Larvas
600 uni. – Grelos
A Responsável pelo Departamento de Nutrição alerta-nos acerca da alimentação dos animais do Zoo:
“A Alimentação dos animais selvagens é tão importante como a alimentação dos animais domésticos e dos Humanos”.
Sabias que…?
Alguma comida é oferecida como é o caso da cenoura e de 2 hipermercados que oferecem as “sobras”, ou seja, alimentos que já não estavam em estado de serem vendidos ou o prazo de validade terminava no próprio dia.
Ana Saraiva, refere ainda qual é o animal mais comilão:
“O Elefante sem dúvida é o mais comilão, ele pode comer entre 30 a 40 quilos de alimento por dia. Este animal come à base de feno, rações e folhagens”.
Comer de forma divertida
O Enriquecimento Ambiental no Jardim Zoológico é um processo dinâmico que adotam, tendo como objetivo estimular os comportamentos naturais de cada espécie. Para além de melhorar o bem-estar animal, evita comportamentos estereotipados e possibilita uma futura reintrodução na Natureza.
Na alimentação de tigres, os tratadores colocam a carne em sacos de serapilheira (um tecido bastante resistente) para que se torne mais complicado o animal conseguir rasgar. Colocam ainda a carne (já com os sacos) num sítio de difícil acesso para que tenham de fazer um esforço semelhante ao do seu habitat natural.
Na alimentação dos ursos os tratadores colocam mel nos buracos dos troncos para estimular os comportamentos naturais do animal.
Por fim, os alimentos como gafanhotos, larvas e grelos são também dados de forma bastante interessante ao animal como, por exemplo, dentro de alimentos que estão habituados a comer, como vegetais, abóboras ou maçãs.
A “Casa” dos Animais do Zoológico
Os funcionários alimentam cada animal e, em seguida, limpam a “casa” de cada um. Há instalações mais complicadas de limpar do que outras, dependendo de cada espécie e é só neste momento que os animais ficam em áreas mais recolhidas, para preservar a segurança dos funcionários.
Sabias que…
Cada espaço do animal, é adequado a cada um, desde a temperatura/humidade, os sons/ruídos e ainda as suas camas:
Temperatura: Muitos animais têm instalações aquecidas, o frio europeu para alguns é complicado
Sons: Os tratadores costumam colocar um certo ruído de fundo para os animais sentirem-se acostumados quando as visitas passam a observá-los.
Camas: Cada tratador tem em atenção de organizar ou colocar mais feno para o conforto de qualquer um.
O tratador Luís Teixeira, refere:
“Cada animal é único, fico muito feliz e para mim é tão especial…”.
Conservação dos Animais do Zoo e em toda a parte do Mundo
Proteção e Cuidados das Crias
Um exemplo de cuidado e delicadeza existente no Zoológico de Lisboa foi o mais recente caso dos filhotes Tigre da Sibéria, onde nenhum humano incomodou a mãe e as crias.
Colocaram somente uma câmara de modo a saber se a mãe estava ou não a cuidar dos filhotes bem como se lhe estava a amamentar ou não. Ficaram protegidas dos olhares do público, acabando por impedir a passagem dos visitantes.
Os animais em risco são aqueles cujas populações estão diminuindo rapidamente ou cuja existência está ameaçada em seu habitat natural. Existem várias razões pelas quais os animais podem estar em risco, incluindo perda de habitat, caça ilegal, poluição, mudanças climáticas e introdução de espécies invasoras.
O trabalho do Jardim Zoológico estende-se até à área de distribuição de diferentes espécies animais, através da conservação no habitat natural. De forma a concretizar a sua missão e levar a cabo os seus programas de conservação o Jardim Zoológico desenvolveu um Fundo de Conservação. Assim, sempre que visitar o Jardim Zoológico está a contribuir diretamente para a Conservação da Natureza.
O Jardim Zoológico apoia vários projetos de conservação pelo mundo, o mais próximo, geograficamente, é o dos linces ibéricos.
O mais recente animal em perigo de extinção é o Panda Vermelho. A perda e fragmentação do habitat, o comércio ilegal e a exploração de recursos florestais são algumas das causas de ameaça que a espécie enfrenta. Estas ameaças associadas a doenças e alterações climáticas, contribuem para o rápido declínio da população de Pandas-vermelhos no seu habitat natural.
Captura de Animais e Vendas Ilegais
O tráfico de animais selvagens é o 4º negócio ilegal mais lucrativo do mundo. As aves de canto são as que têm sofrido uma captura excessiva para o comércio de aves exóticas, a sua participação em competições de canto, utilização na medicina tradicional e até como alimento.
Sabias que...?
Quebra o Silêncio pelas Aves de Canto é uma campanha internacional lançada pela EAZA (Associação Europeia de Zoos e Aquários), têm com objetivo de consciencializar para a eminente extinção de várias espécies de aves de canto, procurando criar condições que tornem possível a sua futura reintrodução no habitat natural. Veja o que um donativo pode fazer.
Este apoio a causas e o trabalho dos tratadores para tentar minimizar os perigos de extinção dos animais selvagens demonstra a dedicação constante perante a preservação dos animais por toda a parte do mundo.
Tiago Carrilho, Biólogo e Técnico Educativo diz:
“Acho que nunca vamos conseguir conservar aquilo que não conhecemos”.
Conquistas no Salvamento à Espécie
Há espécies que tiveram longos anos de extinção como é o caso do animal Órix-de-cimitarra (Oryx dammah), que habitavam o Norte de África e ficaram extintos no ano de 2000.
Contudo, quando se celebrava 140 anos de um trabalho diário em prol da conservação de espécies ameaçadas, o Jardim Zoológico oficializou uma conquista histórica: o regresso do Órix-de-cimitarra (Oryx dammah) à natureza.
Outro exemplo é o Leopardo da Pérsia, que estava extinto na Rússia há mais de meio século, e, em 2012 enviaram um casal desta espécie que se reproduziu 2013 e a primeira fêmea foi reintroduzida em 2016 no Cáucaso-Russo após um período de preparação de reintrodução.
Hospital Veterinário do Jardim Zoológico
Para além de uma boa alimentação e de um bom espaço para o bem estar do animal, O Jardim Zoológico tem ainda o Hospital Veterinário, para garantir a saúde de todos. Realizam-se frequentemente análises, Raio X, TAC e ainda Ecografias. É considerado o melhor Hospital Veterinário de toda a Europa.
Com o avanço da medicina, os métodos para medicar um animal levou à existência de dispositivos de administração à distância. Na maioria dos casos é é injetada diretamente no animal ou às vezes utilizam a via alimentar (com o uso das gelatinas, por exemplo).
Rui Bernardino, Veterinário do Jardim Zoológico defende que o Método Laparoscopia é o melhor método para os animais selvagens e onde vê a maior vantagem do que em qualquer outra área, seja na medicina, seja na veterinária:
“Os animais podem ser reintroduzidos rapidamente nos grupos de origem”.
"As incisões são muito mais pequenas e os animais não mostram sinais de dor nem de desconforto na maioria dos casos.”
Três em cada dez cirurgias são feitas através deste método.
Sabias que…?
Deslocação dos Animais
É falso utilizar anestesia para transportar os animais.
Susana Nolasco, Responsável de Transporte de Animais, esclarece:
“Nenhum animal não pode ser anestesiado para o transporte pois durante a viagem temos de saber se o animal está bem.”
Porém, sabemos que não é fácil ficar numa caixa durante algumas horas, por isso, uma estratégia que os transportadores utilizam é, dias antes da viagem, o animal tenta-se habituar à caixa que será transportado.
Além disso, é que enquanto os transportadores tiverem animais nos veículos nunca param!
A Evolução
Voltando um pouco atrás no tempo, em 1884, ano em que nasceu o Jardim Zoológico de Lisboa, os animais viviam em jaulas e os visitantes podiam tocar-lhes, dar comida e até subir para as costas de certos peludos. Além disso, era permitido a venda ou compra dos animais quer para o circo, quer para outros fins (lucrativos).
Contudo, ao longo do tempo, o Jardim Zoológico adaptou-se, bem como as pessoas começaram a consciencializar-se mais dos direitos dos animais. Assim, passou-se de grades para pequenas ilhas, com instalações mais naturalistas, adaptadas ao habitat de cada espécie.
Atualmente, nenhum animal deste Jardim é vendido ou comprado, a maioria que estão neste pequeno mundo já nasceram no Zoo ou vieram de outros.
Esta casa fez e faz parte da maioria dos lisboetas e das pessoas que visitam esta linda capital, desde os mais novos até aos mais velhos.
Tal como Carlos Mendes disse-nos sobre qual era a opinião dele quanto a este Jardim Zoológico:
"É como a Terra do Nunca, parece que nunca crescemos quando estamos a visitá-lo”
Não ignoramos também quem mora ao lado deste Jardim, Maria da Luz Martins, vizinha dos elefantes do Zoo há mais de 20 anos diz-nos:
“Não gostava de mudar de sítio, vejo todos os dias os elefantes, não fazem barulho e são muito bons vizinhos!”
O Jardim Zoológico de Lisboa é muito mais do que uma simples atração. Dos desafios diários aos triunfos na preservação das espécies, o zoológico representa um compromisso constante com o bem-estar animal e a salvaguarda da biodiversidade.
Autora: Ana Catarina Santos














Comentários